O nome dela é Iracema. 71 anos.
Minha mãe passou 47 anos limpando casa dos outros. Depois que meu pai morreu, criou nós dois sozinha: eu e o Sandro.
É a aposentadoria dela que paga a casa onde ela mora. Com ele.
Eu tenho uma foto dos dois: o Sandro com 8 anos, no colo dela.
Minha mãe foi parar na UTI com o quadril destruído, três costelas quebradas e a cabeça aberta.
"O homem que fez isso com ela é esse menino que cresceu."
O Sandro me defendia na escola.
Esse era o meu irmão antes. Aos 20, o crack. Aos 24, o diagnóstico: transtorno bipolar.
Minha mãe vendeu o que tinha em duas internações. Ele saía no terceiro dia.
"Faz 5 anos que ele não toma remédio. E faz 5 anos que eu arrumo desculpa pra ele."
Xingamento. Empurrão. Soco. Minha mãe escondia os hematomas com manga comprida.
E eu? Eu falava: "Ele é doente. Não é ele, é a doença." Falei isso pra minha mãe. Pros vizinhos. Pra mim mesma. Durante 5 anos.
Hoje eu parei.
Foi numa terça-feira.
Minha mãe fez uma coisa que nunca tinha feito. Olhou pra ele e disse:
"Eu não vou mais viver assim."
Foi a primeira vez em 5 anos que ela disse não. A resposta dele foi jogar ela contra a mesa da cozinha.
O quadril ficou em vários pedaços e três costelas quebraram. Ele saiu correndo.
Ela ficou três horas no chão, até a vizinha de cima ouvir o gemido e chamar o SAMU.
A primeira vez que ela disse não, ele quebrou ela.
Hoje a paciente é minha mãe.
Sou enfermeira num hospital público faz 14 anos. Quantas vezes eu falei pra uma paciente: "a senhora não pode continuar nessa casa."
Pra minha mãe, eu falava que era a doença.
O ortopedista foi direto: cirurgia em 30 dias, ou ela não anda mais sem muleta.
O SUS faz essa cirurgia. Só que tem fila.
"O prazo dela é de 30 dias. A fila é de 8 meses."
E ela precisa voltar a andar.
A cirurgia custa R$ 115 mil.
Eu não tenho esse dinheiro. O que minha mãe tinha, ela vendeu nas duas internações do Sandro.
Por 5 anos, o que acontecia naquela casa ficou escondido: debaixo da manga comprida dela, atrás das minhas desculpas. Esconder não protegeu ninguém.
Por isso eu tô contando tudo aqui. Não é pena que eu tô pedindo. É ajuda pra uma cirurgia que tem prazo.
"Cada ajuda paga um parafuso da placa que vai segurar o quadril dela no lugar."
Essa é a única esperança pra minha mãe operar e sair dessa prisão que a droga criou.
O Sandro continua sendo meu irmão. Mas eu não defendo mais o que ele faz.